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A Uberização do Brasil: Quando o Diploma Perde pra um Aplicativo

Médicos, professores, enfermeiros, engenheiros, administradores. Gente que passou anos da vida estudando, pagando mensalidades, fazendo estágio, e hoje ganha menos do que quem liga o aplicativo e sai dirigindo. O Brasil está criando uma geração inteira que olha pro diploma e pensa: pra que isso serviu?

E o pior: o impacto para o brasil como um todo. Vamos mexer nessa ferida aí.

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DIPLOMA PRA QUÊ?

A gente falou da situação precária da medicina. Um médico que gastou mais de 800 mil reais na faculdade, estudou seis anos, e quando finalmente começou a atender, descobriu que o salário dele no SUS é menor do que o de um motorista de Uber que trabalha em São Paulo. 

Inclusive, eu descobri que se você achava que coach era odiado pelos brasileiros, você não viu como o povo “adora” os médicos. Dá uma olhada depois lá pra você ver.

Mas a questão do diploma mal remunerado não é exclusividade do médico não. Professor, e até engenheiro estão no mesmo pacote: vários profissionais com um diploma que não serviu pra nada.

Só um ponto: nada contra ser uber, tá? Muito pelo contrário, qualquer trabalho é digno pra colocar comida na mesa da sua família. Inclusive um salve para os ubers do brasilzão, que tanto salvam a nossa vida. 

Só que pra isso você não precisaria ter diploma, né? Jajá falamos disso.

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A MATEMÁTICA NÃO FALHA

Vamos aos números, porque aqui a gente não trabalha com achismo. 

A faculdade de Medicina numa instituição particular custa entre 8 mil e 13 mil reais por mês. São seis anos de curso. Fazendo as contas com reajuste e despesas adicionais, o investimento total pode passar fácil de um milhão de reais.

E quando o cara se forma? 

O salário médio de um médico generalista é de cerca de 11.800 reais por mês pra uma jornada de 27 horas semanais. Parece bastante? Lembra que ele investiu quase 1 milhão de reais. 

A conta não é essa exatamente, mas só pra você ter uma noção. Se ele tivesse colocado esse dinheiro rendendo 1% ao mês, teria quase 10 mil reais por mês sem sair da cama. Desnecessário dizer que a função do médico é muito mais nobre do que a do “rentista””, concorda?

O médico no SUS, dependendo do município, começa ganhando entre 4.200 e 9 mil reais. Isso depois de 6 anos de faculdade, internato, plantaão, estresse. É um absurdo. Financeiramente falando, se o médico não progredir na carreira, não vale a pena.

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QUANDO DIRIGIR VALE MAIS A PENA

Agora compara com o motorista de aplicativo. 

Segundo dados oficiais do IBGE, o motorista de Uber ganha em média 2.766 reais por mês. Parece pouco, né? 

Mas esse cara não gastou 900 mil reais estudando. Eu sei, aguentar passageiro pé no saco não é fácil. Mas não precisou gastar 6 anos da vida estudando. Sem plantaão de madrugada em hospital. 

E em São Paulo, motoristas que trabalham em jornada integral relatam ganho líquido de 3.200 a 4 mil reais por mês. 

Agora pega o professor. O piso salarial do professor da educação básica pública em 2025 é de 4.867 reais por 40 horas semanais. Esse ano que está passando para R$ 5.130,63. Quatro anos de faculdade, licenciatura, formação continuada, e o cara podendo ganhar menos que um motorista de Uber em capital grande. 

O enfermeiro? A média nacional fica em torno de 3.900 reais. 

Bem abaixo do piso da categoria, definido por lei, que é de 4.750 reais pra 44 horas semanais.

Eu sei que ser motorista não é fácil. Mas jura, compara com lidar com vida e morte todo dia, dar banho em paciente, trocar fralda. E te contar, viu, quem segura a bronca no dia a dia ali, que apaga incêndio de verdade, que cuida de paciente, são esses caras, viu? Não é o médico não.

Graças a Deus, realmente é um verdadeiro milagre ter esses heróis na linha de frente. Se fosse só salário, não sobrava ninguém.

O engenheiro civil, que faz 5 anos de faculdade, tem salário médio de 9.500 reais. Mas aqui tem um detalhe: as contratações formais de engenheiro civil caíram. 

Ou seja, além do salário não ser lá essas coisas pra quem estudou 5 anos, as vagas estão diminuindo. Ou será que não estão achando gente pra trabalhar? 

Mas e a administração de empresas? É um dos cursos mais procurados do Brasil. Mas segundo o Instituto Semesp, mais de 25% dos graduados brasileiros trabalham fora da área de formação, e quase 5% estão em cargos que nem exigem diploma. A engenharia química é ainda mais grave: 55% dos formados estão fora da área.

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UBERS COM DIPLOMA

O Brasil hoje tem um milhão e setecentos mil de pessoas trabalhando por aplicativo como atividade principal. Esse número cresceu 35% em dois anos. 

A gente nunca teve tanta gente trabalhando como motorista de app por aqui.

E quando você olha o perfil dessas pessoas, quase metade tem entre 25 e 39 anos, e a maioria tem ensino médio completo ou superior incompleto. 

Ou seja, é gente que poderia estar no mercado formal, mas que escolheu o aplicativo. E você pode perguntar: por quê? Porque o mercado formal paga pouco, cobra muito e oferece condições ruins. O aplicativo pelo menos dá flexibilidade. A pessoa escolhe o horário, não tem chefe enchendo o saco, e em muitos casos ganha mais do que ganharia num emprego CLT de nível médio.

Só que 71% desses trabalhadores estão na informalidade. Não têm férias, não têm 13º, não têm FGTS, não têm seguro. Se ficar doente, para de ganhar. Se o carro quebra, param de ganhar. Nesse ponto tem uma meia liberdade: você acha que é seu próprio patrão, mas quem define quanto você ganha, qual corrida você pega, e quando você é punido é o algoritmo do aplicativo.

O Banco Central publicou um estudo e mostrando que o número de trabalhadores por app cresceu 170% desde 2015. Esses trabalhadores já representam 2,1% da população ocupada do país. E o Banco Central concluiu que esse crescimento ajudou a reduzir a taxa de desemprego em 0,6 ponto percentual. 

Parece positivo, né? Mas pensa comigo: estamos comemorando que o desemprego caiu porque mais gente virou motorista de Uber. Quando na verdade é um trabalho, ao pé da letra.

Meu ponto é outro: mais da metade dos motoristas tem diploma. Claro que não precisaria estudar 4, 5 anos pra isso, concorda?

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QUANTO TODO MUNDO VIRA UBER, O QUE ACONTECE?

E aqui vem o ponto mais importante: o que acontece com um país quando estudar deixa de compensar? Porque é isso que está acontecendo. 

Se o cara olha pro professor ganhando 4.800, pro enfermeiro ganhando 4.500, pro médico do SUS ganhando 7.500 no começo da carreira depois de gastar quase 1 milhão, e vê que dirigindo Uber ele tira 4 mil sem ter gastado nada com faculdade… qual a escolha racional? 

Parece um bom acordo? Eu não o culpo, é um acordo muito bom.

Assistam bastardos inglórios. Pelo amor de deus.

Mas voltando. a conta não fecha. E o Brasil já sente isso. 

O número de formados que trabalham fora da área cresce todo ano. Mais de 5 milhões de brasileiros com diploma universitário enfrentam dificuldades no mercado de trabalho. 

Tem gente formada em assistência social trabalhando de babá. Engenheiro de produção virando assistente administrativo. Administradora trabalhando de caixa de supermercado.

Um de cada 3 diplomados estão em áreas que não precisa de diploma.

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MAS O MERCADO SE AJUSTA, NÉ?

Existe uma teoria econômica que diz: quando a oferta de profissionais aumenta muito, o salário cai até que a profissão fique tão desinteressante que menos gente procura, e aí o salário volta a subir. Oferta e demanda. Simples, bonito na teoria. 

Mas na prática, no Brasil, isso não funciona tão rápido assim. Porque enquanto o ajuste acontece, quem sofre? A população. Menos médicos no SUS significa mais fila, mais gente morrendo sem atendimento. 

Menos professores significa educação pior, e educação pior significa um país mais burro, mais violento, que aceita mais a corrupção.  E mais pobre no futuro. Menos enfermeiros significa hospitais funcionando no limite. É questão de toda uma infraestrutura do país desmoronando.

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É IGUAL NO MUNDO TODO?

Agora, você pode pensar: isso é um problema global, então tudo bem, todo mundo sofre igual. Calma, champs. 

O problema existe em outros países, sim, mas com intensidades completamente diferentes. 

Vamos pegar o médico, que é o exemplo mais gritante. Nos Estados Unidos, o salário médio de um médico é de 374 mil dólares por ano. 

Fazendo coisa que não se deve que é converter: hoje daria quase 2 milhões de reais por ano. 167 mil reais por mês. 

O clínico geral americano, que é o que ganha menos entre os médicos, tira 287 mil dólares por ano. 

Mesmo ajustando pelo custo de vida, não tem comparação com o médico brasileiro do SUS que começa ganhando 7.500 reais. O médico americano ganha muito, é respeitado, e o país tem até falta de profissionais. 

Lá, a Universidade de Georgetown projeta um déficit de 5,25 milhões de trabalhadores com diploma até 2032. Professores, enfermeiros, médicos, engenheiros. No Brasil, a gente tem o oposto: excesso de formados disputando salários baixos.

Porque uma coisa é formado em comunicação não achar vaga. Outra coisa é médico, enfermeiro e professor abandonando a profissão porque o Uber paga melhor. Isso não é ajuste de mercado. Isso é o verdadeiro colapso de serviços públicos em câmera lenta.

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E AGORA, O QUE FAZER?

O que a gente pode fazer? Primeiro, entender que diploma sozinho não resolve mais nada. Quem vai pra faculdade precisa ter um plano. Não dá pra olhar só pra o que você gosta de fazer. Tem que pensar: qual área está com demanda real? 

Tecnologia, por exemplo, tem déficit de mais de 100 mil profissionais por ano no Brasil.

Enquanto isso, áreas como direito, administração e pedagogia formam gente demais pra vagas de menos. Segundo, quem já está formado e ganhando pouco precisa aprender a fazer o dinheiro trabalhar. 

Porque se o salário é baixo, você precisa de outras fontes de renda. Tudo vale pra gerar mais dinheiro pra investir, inclusive o bom e velho app de corrida. Mas não pode ser pra sempre, na minha opinião.

Terceiro, tem muita gente esperando que o governo resolva. O piso do professor é de continua baixo de verdade. O INSS não vai dar conta da aposentadoria de ninguém. A única pessoa que pode proteger o seu futuro financeiro é você.

Porque o Brasil tá sim se uberizando. E isso não quer dizer só que tem mais gente dirigindo por aplicativo. 

Quer dizer que o país está aceitando como normal que profissionais formados ganhem menos do que apenas dirigir. 

Veja bem, não tem mal nenhum ser motorista, precisamos de vocês. Mas o recado é: será que a gente vai chegar um dia e dizer: estudar pra que, nesse país?

E você acha que se a gente chegar nesse ponto, com menos estudo, a gente vai andar pra frente ou pra trás?

Se você acha que isso não te afeta, pensa de novo. O médico que não está lá pra te atender, o professor que largou a sala de aula, o enfermeiro que pediu demissão pra dirigir Uber. 

A água vai bater na bunda uma hora. A única saída individual é você tomar o controle do seu dinheiro, aprender a investir e parar de terceirizar o seu futuro pro governo, pro banco ou pro patrão.  Faz sentido?

A gente tem feito vários textos sobre isso, do apagão da mão de obra e da pejotização. Aproveita pra já emendar e ler também, te vejo lá.

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