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A FÁBRICA DE MÉDICOS QUE ESTÁ QUEBRANDO A MEDICINA NO BRASIL

A bolha dos médicos estourou. 

fonte: Correio de Minas

O número de profissionais formados explodiu, tem briga em grupos de whatsapp por plantões, por valores cada vez menores. E o pior: quem paga a conta disso, adivinha… Sim, o povo. Porque quando tem médico disponível pra trabalhar, ainda sofre com atendimento precário.

O que a gente fez pra chegar nessa situação, o que tá acontecendo com os médicos do país?

TANTO ESTUDO, PRA NADA?

Imagina você estudar seis anos da sua vida, pagar uma mensalidade de mais de dez mil reais por mês, se endividar, abrir mão de festas, finais de semana, sono, saúde mental, passar por tudo isso pra conseguir o tão sonhado diploma de médico… 

Pra, no fim, descobrir que o seu plantão de doze horas num pronto-socorro paga menos de oitocentos reais. 

Isso já está acontecendo. E o pior: 

tem médico recém-formado atendendo em clínica popular recebendo trinta, cinquenta reais por consulta. Trinta reais. O preço de um lanche no shopping. 

Só que com a responsabilidade de ter a vida de alguém nas suas mãos. A medicina no Brasil está passando por uma transformação silenciosa, e quase ninguém está falando sobre isso do jeito que deveria.

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O PAÍS QUE FORMA MÉDICOS

O Brasil tem hoje mais de 635 mil médicos em atividade. Parece muito, né? E é. 

Mas olha o ritmo: só nos últimos cinco anos, entraram mais de 116 mil novos médicos no mercado. Em 2004, existiam 143 faculdades de medicina no país. Sabe quantas são hoje?  448 faculdades. 

As vagas anuais saltaram de 13.800 pra quase 48.500. E quase 80% dessas vagas estão em faculdades privadas. A gente triplicou o número de escolas médicas em vinte anos? Triplicou. A pergunta é: será que a qualidade acompanhou?

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MÉDICOS FORA DE FORMA

A resposta veio em janeiro de 2026. O MEC aplicou pela primeira vez o Enamed, o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica. É tipo uma prova que mede se o estudante que está saindo da faculdade realmente sabe o mínimo pra exercer a profissão. 

E o resultado foi assustador: 30% dos cursos avaliados tiraram notas 1 ou 2, que são consideradas insatisfatórias. 

São 107 cursos reprovados. Desses, 99 vão sofrer punições do MEC, que incluem proibição de abrir novas turmas, corte do FIES e redução de vagas. 

E aqui vem o dado que dói: quase 14 mil alunos que estão se formando neste momento vieram dessas faculdades com nota baixa. 

São pessoas que vão receber o diploma e vão atender você, a sua família, os seus filhos.

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MAIS MÉDICOS (SERÁ)?

Pra entender como a gente chegou aqui, precisa voltar um pouco no tempo. Lembra lá em 2013, quando o governo criou o programa Mais Médicos? 

A ideia era levar médicos pra regiões do interior onde ninguém queria ir. Junto com isso, abriram as comportas pra criação de novas faculdades de medicina, principalmente privadas. 

O argumento era simples: o Brasil precisava de mais médicos. E precisava mesmo. 

Mas o que aconteceu foi que a maioria desses novos cursos abriu em cidades grandes ou em municípios que já tinham médicos sobrando. 

O que as faculdades perceberam? Que se tem um lugar onde o povo paga caro por um diploma, é medicina. E o que fizeram? montaram fábricas de diplomas. Muitas dessas escolas não têm hospital-escola decente, não têm campo de estágio suficiente, não têm professores qualificados. 

Algumas abriram em cidades pequenas como a nossa, de menos de cem mil habitantes. E olha como é o cenário: a concorrência no vestibular caiu pra menos de onze candidatos por vaga. Antes, eram quase 47 candidatos por vaga na média nacional. Hoje, nas privadas, são só 7. Quase um: vai quem quer, basta pagar.

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A BOLHA ESTOUROU

E aí acontece o efeito dominó. A gente tem 36 mil médicos por ano, mas só existem 16 mil vagas de residência médica, aquela pós-graduação que especializa o médico.

Ou seja, mais da metade dos recém-formados sai da faculdade e não consegue se especializar,simplesmente porque não tem vaga. 

E sem residência, o médico vira um generalista disputando plantão com outros milhares de generalistas. 

Disputando mesmo, olha a estratégia:

deixar a palavra PEGO digitada no whatsapp, pra mandar mais rápido quando tiver proposta de plantão. Diz que não demora 5 segundos pra ser preenchida. Podendo a ser menos de 60 reais por hora.

Só pra você ter uma ideia, o povo na gringa, reclama do pagamento do plantão de 218 dolares por hora, que é um absurdo de tão pouco.

É tipo um Uber da medicina. Enquanto isso, o interior do país continua abandonado. 

Cidades no Marajó, no Pará, têm 0,33 médico pra cada mil habitantes. O Maranhão inteiro tem 1,27. A média recomendada pela OCDE é 3,7. 

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E O SALÁRIO, Ó?

E o salário, ó?

Não tem um padrão. Mas a Federação Nacional dos Médicos recomenda um piso de cerca de vinte mil reais pra vinte horas semanais. 

Mas a realidade de quem acabou de se formar é completamente diferente. 

O salário médio de um recém-formado pode ficar entre sete e doze mil reais. Parece bom? 

Parece, até você lembrar que esse cara pode ter gasto 1 milhão na faculdade, estudou seis anos e agora precisa fazer vários plantões por semana pra tentar amortizar esse valor.

A bolsa de residência médica, pra quem consegue vaga, é de R$ 4.106 brutos por mês. Pra uma carga que pode passar de sessenta horas semanais. 

Faz a conta: dá menos de 16 reais por hora.

E na consulta, médico ganha bem, né? Os planos repassam uns 130 reais por consulta, na média. Pode ser bem menos, inclusive.

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VOCAÇÃO SEM DINHEIRO?

Eu sei que nessa hora já tem comentário aqui dizendo:   “Você não escolheu medicina pelo dinheiro, escolheu pra salvar vidas.” Tipo, benfeitoria com o chapéu dos outros.

De fato tem uma pressão social gigantesca pra que o médico trabalhe por vocação. Quantas vezes você já ouviu isso?

É bonito, é nobre, e em parte é verdade. Medicina é uma das profissões mais importantes e mais bonitas que existem. Mas convenhamos: nenhum engenheiro, nenhum advogado, nenhum programador ouve isso. 

Ninguém fala pro engenheiro que ele deveria projetar pontes de graça porque a vocação dele é servir a sociedade. Existe uma romantização perigosa da medicina que é usada, muitas vezes, pra justificar salários baixos e condições ruins. 

O médico pode ter toda a vocação do mundo, mas ele também tem conta pra pagar, família pra sustentar e, em muitos casos, uma dívida de faculdade que vai levar anos pra quitar. 

E sabe o que é curioso? Quando o médico reclama do salário, uma parte da sociedade reage com raiva: “Você ganha bem demais, tá reclamando do quê?” Mas isso é olhar só pra média geral. 

A média esconde o médico recém-formado que faz cinco plantões por semana pra juntar quinze mil reais e ainda precisa pagar o financiamento da faculdade. Esconde o residente que ganha quatro mil por mês trabalhando sessenta horas por semana. 

A vocação de servir é linda, mas ela não paga boleto. Quando a gente aceita que médico tem que trabalhar mal remunerado por amor, a gente aceita também que o atendimento vai piorar. Porque profissional cansado e frustrado erra mais.

É só você olhar o salário aqui no brasil de policial, bombeiro, professor. Ganham bem? Não. Prestam o melhor serviço, a gente tem os melhores profissionais nessas profissões? Nem sempre. Na verdade a gente tem que tirar o chapéu pra esses heróis, que ganham pouco e fazem muito.

Mas se paga pouco, infelizmente não sobra muito. Com qual dinheiro, em qual hora esses profissionais vão se qualificar? Com qual incentivo? Pra ganhar o mesmo do colega que coça o saco?

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Consultas mais baratas (ou será que não?)

Essa explosão de médicos no mercado, em teoria, deveria baratear o custo da saúde pra população, certo? Mais oferta, menor preço. 

Mas na prática, os planos de saúde continuam caríssimos. As consultas particulares de especialistas continuam custando quinhentos reais, milão. 

O que barateou foram as consultas em clínicas populares, onde o médico recebe uma fração mínima do valor. Ou seja, quem está pagando a conta dessa precarização é o próprio médico. 

O paciente não viu o preço cair de forma significativa nos planos. E o médico viu o salário despencar. Quem ganhou com isso? As redes de clínicas populares e os grupos educacionais que vendem o sonho do diploma de medicina a preço de ouro.

Já vai me contando nos comentários se chegou aí na sua cidade uma consulta baratinha.

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A OAB DA MEDICINA

O CFM, o Conselho Federal de Medicina, vem alertando sobre isso há muito tempo.

O presidente do conselho, José Hiran Gallo, disse publicamente que quando mais de um terço dos alunos que estão saindo de medicina tiram nota insuficiente na prova do próprio MEC, a gente está diante de um problema grave. 

Pra resolver isso, vem uma parte polêmica.

O CFM defende a criação de um exame obrigatório chamado Profimed, que funcionaria como uma espécie de OAB da medicina. 

Ou seja: você se forma, mas só recebe o registro pra exercer a profissão se passar na prova. Pesquisas apontam que 96% da população brasileira concorda com essa ideia. Faz sentido? Faz, se você quer ter certeza de que o médico que vai te operar, te receitar um remédio ou diagnosticar seu filho sabe o que está fazendo.

Mas eu tenho uma ressalva e eu quero te ouvir nos comentários: vamos olhar o caso da OAB. Como nem todos passam,  acaba sobrando só advogados caros, que o pobre não tem condições de contratar. 

Eu acho que deveria ter uma categoria liberada, certamente mais barata, porque antes ter algum ALGUM médico ou advogado do que não ter nenhum. Assim a gente tira um pouco a elitização da coisa, porque tem que ter solução mais em conta, sobretudo para problemas menos complexos. O que você acha, hein?

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O FUTURO NOS AGUARDA

E a projeção pro futuro não ajuda. 

Segundo a Demografia Médica 2025, o Brasil deve ultrapassar 1,15 milhão de médicos até 2035. Mais de 70% de médicos que a gente já tem HOJE.

Se a distribuição continuar do jeito que está, o Distrito Federal vai ter quase 12 médicos pra cada mil habitantes, enquanto o Maranhão vai ter 2,4. Vai sobrar médico em São Paulo e faltar médico no Pará. 

Vai ter médico formado ganhando menos que motorista de aplicativo na capital e cidade sem nenhum médico no interior. É um sistema que forma demais, forma mal e distribui errado.

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E O QUE ISSO IMPORTA?

E o que isso tem a ver com você? Bom, depende se você é médico ou não.Vamos começar por você que é profissional da saúde.

E se você já é médico, entenda que lutar por melhores condições de trabalho e por uma remuneração justa não significa que você perdeu a vocação. Significa que você quer continuar exercendo essa vocação sem destruir a sua saúde física e mental no processo. Servir o próximo e ser bem pago por isso podem e tem que andar juntos, concorda?.

Até porque o propósito se perde quando você não ganha bem. Quantos artistas por exemplo deixaram o que mais amam, porque não recebem direito? Se você não ganha bem, você deixa de amar aquilo que você ama.

Mas se você já é médico e já está estabelecido, se já criou um patrimônio, é fundamental que você invista bem. Tem bastante texto aqui no canal, mas a vida de médico é bem corrida, eu sei. Conte com a minha consultoria CVM, a Lumen, pra te ajudar nesse sentido.

E pra você que nem é médico? Tem tudo a ver.

Porque quando a gente precariza a medicina, a gente precariza o atendimento. Um médico cansado, mal pago, que precisa atender quarenta pacientes por dia pra fechar a conta no final do mês, vai te dar uma consulta de cinco minutos. Vai errar mais. 

Vai prescrever no automático. Vai pedir exame demais ou de menos. Vai perder a capacidade de ouvir o paciente com calma. E você, que está do outro lado, vai sair do consultório com a sensação de que nem foi atendido direito. Conta pra mim se isso já aconteceu com você.

Se você está pensando em fazer medicina, pense com cuidado. 

Pesquisa a nota da faculdade no Enamed. Veja se ela tem hospital-escola, se tem campo de estágio real, se os professores são médicos que atuam na prática. 

O diploma de medicina ainda vale muito, mas um diploma de uma faculdade mal avaliada pode virar um problema. 

E pra todo mundo que assiste esse canal e quer proteger o próprio dinheiro: fica de olho. Se você tem filho que quer fazer medicina, TEM que calcular o custo real. 

Uma faculdade privada de medicina pode custar pelo menos de 600 mil e 800 mil reais ao longo de seis anos. 

Antes de investir esse dinheiro num curso, vale olhar se aquela faculdade realmente entrega o que promete. 

Saúde e educação são dois dos setores mais importantes de qualquer país. 

E quando os dois entram em crise ao mesmo tempo, todo mundo paga a conta. Se esse texto fez você pensar diferente sobre alguma coisa, compartilha com alguém que precisa ouvir isso. Valeu, e até o próximo.

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