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Lecar

Você compraria um carro híbrido brasileiro, que ainda não existe?

 Desembolsando 9 mil reais pra isso ainda?

Essa é a história e a promessa da Lecar. Carros bonitos, com bom preço, e com bandeirinha do brasil. Parece boa demais pra ser verdade, né? Será que vai dar certo?

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Fala dinheirudo, um recado antes. Se você tem 300 mil ou mais investidos, eu quero te dar um feedback, sim, analisar a sua carteira de graça, te mostrando os pontos de melhoria. Link no primeiro comentário. Se você não tem esse valor, não esquenta, comenta aqui: “eu chego lá”.

Agora Imagina a cena. Um carro “novo” entra no salão do automóvel. Cheio de luz, câmera, gente filmando… 

Só que ele entra empurrado por funcionários. Não roda sozinho, porque aquilo ali ainda não é um carro de verdade. É um mockup, uma maquete em tamanho real, feita com materiais leves, pra parecer pronta no palco. 

Essa cena aconteceu com a picape Lecar Campo, 

vendida como parte de um projeto de carro eletrificado brasileiro que promete rodar muito, gastando pouco, um híbrido com motor elétrico de 165 cavalos.

E aí vem a parte que pega. Mesmo sem fábrica pronta, sem protótipo funcional em teste rodando por aí, e com cronograma apertado, a Lecar já oferecia uma forma de “comprar” o carro pagando em boletos por anos, sem juros, e com entrega prometida na metade do plano. 

Na prática, se você colocasse dinheiro nisso, você deixaria de ser só “comprador”. Você vira financiador do projeto. E, claro, assumindo o risco também. 

Agora vamos dar nome aos bois. A Lecar é uma empresa que se apresenta como montadora brasileira de veículos híbridos e elétricos, com os modelos 459, a coupé 

e a pickup Campo como principais apostas. 

Ela anunciou fábrica em Sooretama, no Espírito Santo. Cidade pequenininha, 30 mil habitantes, que contrasta com discurso enorme da firma: capacidade na casa de 120 mil carros por ano e milhares de empregos gerados. 

A 4 rodas chamou de Tesla híbrido nacional.

O próprio dono se autodenomina “O Elon Musk Brasileiro””

Em 2024, sites automotivos repercutiram esse plano, com números e cronograma, incluindo “pedra fundamental” ainda em 2024 e inauguração prevista para agosto de 2026. 

Só que quando você junta as cenas mais recentes, o filme fica bem menos bonito. 

Em outubro de 2025, já tinha reportagem dizendo que a fase de “pedra fundamental” e obra não tinha acontecido de fato, 

e que os carros continuavam em estágio de mockup, sem unidades de teste em operação. 

Em agosto de 2025, o AutoPapo descreve uma sequência de mudanças de rumo do projeto, além de reuniões para montar “revendas” sem carro real exposto, sem estoque e sem test drive, como se isso fosse normal para uma montadora. 

E em fevereiro de 2026, a Quatro Rodas mostrou um ponto que é bem simbólico: a Lecar já tinha “concessionária”, só que vendendo carros de outras marcas, enquanto o projeto próprio seguia sem protótipo funcional apresentado e com fábrica ainda não pronta. 

O próprio cronograma foi escorregando. 

Em novembro de 2025, saiu que os planos tinham sido prorrogados e que a produção, que antes era falada para agosto de 2026, passou a ser citada para o segundo semestre do ano que vem, com obras começando no primeiro trimestre de deste ano ainda. 

Isso conversa com a realidade mais óbvia do mundo industrial: montar fábrica, montar time, validar processo, montar cadeia de fornecedores, fazer pré série, testar, homologar, acertar qualidade… não acontece do nada.

O Boris Feldman, que é uma referência no setor, ele bate exatamente nesse ponto: o projeto vende promessa com prazo impossível, sem protótipo, sem teste, sem homologação. E mesmo sem o carro já se fala em número fechado de consumo e desempenho. 

Ele também critica as idas e vindas do plano, lembra casos de montadoras brasileiras que não aguentaram o tranco, e alerta que agora já virou assunto de bolso de gente como a gente, porque tem pré venda e “compra programada” rodando. 

Aliás, tinha. Jajá a gente fala disso.

Antes, eu quero falar do que muita gente subestima: know how. Carro não é “desenho bonito e uma lista de peças”. Por sinal, lindos os carros, né? Digo, os protótipos. 

Um carro novo precisa passar por processos formais para poder ser vendido e emplacado. 

Existe certificação e procedimentos ligados à legislação de trânsito, como o CAT, que exige documentação e processo junto à Senatran. 

Também precisa de um ambiente regulatório e de requisitos para veículos novos produzidos ou importados, com metas e exigências que entram na conta de qualquer montadora que queira jogar o jogo no Brasil.

E tem o básico do mercado: eficiência energética e dados oficiais de consumo e emissões passam por programas e tabelas do Inmetro, que são atualizadas com modelos e versões comercializadas. 

Ou seja, o que dizer quando alguém promete “33,3 km por litro de etanol” com precisão, sem ter protótipo rodando? Isso é um sinal de que o marketing está correndo na frente da engenharia. Qual a chance de dar certo, né?

Agora, “tá, mas e os fornecedores?”. Essa é outra parte importante. 

No site, a Lecar lista uma rede de fornecedores e fala que já garantiu peças de reposição no Brasil inteiro antes mesmo de começar a produzir. Ela cita empresas e descreve parcerias, além de falar de motor elétrico, baterias e até memorandos de entendimento para transferência de tecnologia. 

Só que o AutoPapo fez o que muita gente não faz: pegou a lista do site e foi perguntar para os supostos parceiros. E aí a coisa ficou feia. Pirelli disse que não tem contrato. Empresas do grupo Marcopolo negaram vínculo. Randoncorp disse não ter relação contratual, e ainda deixou claro que produto disponível no mercado não é “parceria”. 

Segundo a reportagem, a única que atestou parceria foi a Horse, falando em fornecimento de 12 mil motores. 

E a WEG? 

A WEG tem, sim, um memorando de entendimento com a Lecar para desenvolvimento e fornecimento de componentes como geradores e inversores para solução híbrida flex, e a própria WEG diz que o MOU é um passo antes do contrato definitivo, com previsão de o modelo 459 estar no mercado em 2026 no plano divulgado na época. 

Isso ajuda a dar alguma materialidade, mas também mostra o nível real do compromisso: memorando não é linha de produção rodando, e não é garantia de carro entregue.

Agora vem o ponto mais sensível, que é o dinheiro antecipado. A Lecar tem duas frentes bem claras. Aliás, tinha.

Hoje o site mostra: quem entrou entrou. Quem não entrou, tem que esperar até o final de junho.

Uma forma de comprar  é a “taxa de lista de espera”, que é uma antecipação do valor do carro. 

Nos termos do site, o objeto é um veículo “a ser fabricado futuramente” a partir de agosto de 2026, com possibilidade de prorrogação de entrega, e com promessa de devolução integral do valor pago em até 60 dias se a pessoa desistir. 

A outra era a “Compra Programada”. E aqui eu vou falar bem direto, porque isso é onde muita gente pode ter se machucado. 

No próprio site, a empresa descreve a mecânica: você recebe o veículo na metade do plano e, ao mesmo tempo, entra um cliente novo no plano “suprindo o fluxo de caixa”. 

Sim, está escrito desse jeito. Traduzindo para português bem claro: para entregar o carro de quem entrou antes, a empresa conta com o dinheiro de gente que está entrando depois.

Esse tipo de estrutura pode até funcionar se tiver caixa, margem, crédito, investimento forte, fábrica andando, e um fluxo previsível e sustentável. Mas, sem isso, vira uma corda bamba. 

Se a entrada de novos clientes desacelera, a promessa de entrega começa a escorregar. E aí a empresa tenta ganhar tempo com prorrogação, tenta renegociar, tenta empurrar para frente, e o consumidor fica preso num contrato e num sonho. 

E tem mais. Segundo o InvestNews, a Lecar tentou enquadrar essa captação como “captação antecipada de poupança popular” com base numa portaria de 2022. 

O problema é que, ainda segundo a reportagem, esse tipo de operação exige autorização prévia, e a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda informou que não emitiu certificado de autorização para a “Compra Programada Lecar”. 

Então, quando você escuta alguém dizer “ah, é tipo uma poupança”, é bom entender que “poupança popular” aqui não é a poupança do banco. É uma categoria regulada, com regra e necessidade de autorização. 

E, se a autorização não existe, o risco sobe mais um degrau. 

E ainda tem a confusão que o próprio mercado faz com consórcio. A Compra Programada é vendida como algo parecido com consórcio, só que “sem taxas e sem juros”, e sem banco ou seguradora no meio. Só que consórcio, no Brasil, é um sistema com regras, com supervisão e com administradoras autorizadas. 

Na prática, isso significa o seguinte: consórcio de verdade tem um arcabouço para reduzir abuso e bagunça. Já um plano direto com a empresa, em boleto, sem intermediário, pode ser só uma venda parcelada com entrega futura… ou pode ser uma estrutura de captação de dinheiro travestida de compra. É por isso que tanta gente séria do setor torce o nariz quando vê “compra programada” sendo usada para financiar um projeto que ainda não tem fábrica nem protótipo funcional. 

Aí você me pergunta: “então é golpe?”. Eu não vou cravar isso aqui porque isso é coisa séria e envolve autoridade e prova. Inclusive tudo aqui no vídeo são informações das reportagens, não tem nenhum fato novo.

O que dá pra cravar é o risco pra você, pessoa física que coloca dinheiro antecipado num projeto industrial desse tamanho. 

E esse risco é alto, porque o produto ainda não existe na rua, o cronograma já mudou, parte dos fornecedores listados nega contrato, e o próprio modelo de caixa depende de entrada constante de novos pagadores. 

Agora, dito tudo isso, vamos ser justos: seria bom demais pro Brasil ter uma montadora nacional nova, ainda mais num mundo em que eletrificação e tecnologia viraram assunto de soberania industrial. E que pena se não sair esses carros, porque são lindos demais.

Também é verdade que toda empresa grande um dia foi pequena. A diferença é que, no setor automotivo, a barreira de entrada é gigante:

um carro novo custa centenas de milhões. As grandes montadoras conseguem preços baixos na matéria prima, porque vendem muito.

Então, montadora pequena tem chance quase zero de incomodar uma grande. 

O fato é que o consumidor não pode servir de banco informal do projeto sem entender que está assumindo esse papel. 

Então, se você está assistindo esse vídeo pensando “eu queria muito apoiar”, minha dica é simples e bem prática. Apoiar com aplauso é uma coisa. Apoiar com dinheiro adiantado é outra. Se você for colocar dinheiro, trate como dinheiro de altíssimo risco, do tipo que você aceitaria perder sem quebrar sua vida. 

EU, antes de colocar um real, esperaria sinais concretos: protótipo real rodando em teste, documentação e homologação andando, cronograma real acontecendo na prática, e contratos de fornecimento confirmados publicamente, não só na lista do site. 

E tem uma regra de ouro aqui: promessa de entrega em data marcada, quando depende de fábrica que ainda não saiu do chão, quase sempre vira “prorrogação mediante comunicação prévia”, exatamente como está no próprio termo de reserva. 

Se a Lecar der certo, vai ser ótimo. E honestamente, eu torço pra isso. Vai ser histórico. Vai gerar emprego, vai mexer com cadeia de fornecedores, vai pressionar preço, vai fazer o Brasil voltar a sonhar com carro feito aqui. 

Mas hoje, com as informações públicas que a gente tem, o cenário mais honesto é este: os planos parecem bem mais longe da realidade do que o marketing dá a entender. E o risco está sendo empurrado para o consumidor entusiasmado, cedo demais. 

Eu termino com o que o Bóris colocou no fim da sua matéria, quero ouvir a sua opinião.

Um empresário que funda uma empresa, que não tem sede, que não tem produto e que ainda por cima lista (da própria cabeça) seus fornecedores não pode reclamar da desconfiança da imprensa e da sociedade

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